Opinião

Por que só o lixo de Belém tem graça para o “Pode Crê”?

Digam o que quiserem, mas ninguém gosta de ver um vizinho apontando o defeito de alguém de sua família. Ora, só quem pode falar mal de um membro de sua família é outro membro de sua família.

Não importa o quanto o que digam seja verdadeiro ou não, é uma regra de bom senso, portanto todos deveriam saber, não é mesmo?

Minha irmã mais velha, por exemplo, costumava moer os outros meninos da rua de pancada para me defender. Segundo ela, me bater era uma prerrogativa só dela e de mais ninguém.

A culpa pode ser de uma herança atávica, do sangue lusitano ou talvez seja um algum comportamento recorrente a todos os mamíferos simplesmente, mas uma coisa é certa, já vi muito marmanjo levar um belo gancho de direita só por meter o nome na “mãe” na discussão. É mexer em casa de marimbondo.

Talvez por isso tenha ficado tão fulo, igual mãe de malandro em dia de entrega de boletim, quando recebi um vídeo produzido por um grupo de humor de Parauapebas chamado “ pode crer”, “pode crê”, ou algo que o valha. Não me recordo exatamente. O vídeo era até engraçado, daquele tipo de humor escrachado e desconcertante que o Vesgo fazia na época do Pânico. Havia ironia sobre o lixo nas ruas, os urubus e sobre quanto Belém era suja.

Não me levem a mal, não é que ache que em Belém esteja tudo às mil maravilhas, de certa forma, em alguns pontos eles até tinham razão, mas, me desculpem o mau humor, não seria mais prudente que cada um apontasse apenas os defeitos de suas próprias cidades? É bom e faz bem para os dentes.

Logo fiquei pensando o que levaria um grupo de comediantes viajar mais de 600 quilômetros para falar da cidade alheia? Ora será que Marabá, Parauapebas e Canaã estão tão perfeitas assim que já tenham perdido até a graça?

Talvez por conta disto ou talvez pela malícia habitual que persegue àqueles que sabem que neste mundo não existe almoço grátis, corri para dar uma sacada em outros vídeos do tal grupo. Qual foi meu espanto? Parece que só o lixo de Belém inspira o grupo mambembe “pode crê”. Os “lixos” de lá não têm graça.

Em Canaã, por exemplo, o tal “Pode Crê” é bem chapa branca, frouxo que nem hiena fora do bando. Nada de lixos, buracos, urubus. Lá os risos parecem ser de felicidade. O humorista elogia o lago artificial que está sendo criado pela gestão do MDB e até entrega bonés aos cantores Bruno e Marrone

Em Paraupebas nem se fale, o grupo fez um vídeo só para rasgar elogios à  iluminação de Led que recebeu a cidade. Saibam eles ou não, a tal iluminação, que custou 100 milhões aos cofres públicos, está sendo investigada por irregularidades na licitação. A mesma empresa “ungida” ficou responsável pelo inventário, locação, instalação de equipamentos, e , de quebra, ainda cuidará do suporte e da manutenção. É mole? (veja aqui)

Em outro vídeo o grupo fala do projeto pipas, da prefeitura. Aqui também, não há lixos, buracos e nem urubus. 

“O humor é subjetivo” disse o personagem Coringa na cena antológica em que atira no apresentador de talk show Murray Franklin interpretado por Robert De Niro, deixando o público atônito.

Eu, por exemplo, vi mais graça na iluminação de Led faraônica e na construção de um lago no meio do nada, em uma terra em que rios e igarapés são abundantes. Coisa de português.

Belém tem problemas crônicos, certamente o lixo é um deles. Quem não os tem? Por que os problemas daqui têm graça e os das bandas de lá, não?

Provocações à parte, talvez fosse mais sensato seguirmos o exemplo da escola de humoristas judeus norte americanos, que só faz piadas com seus próprios defeitos ao invés de depreciar terceiros.

Fica a dica ao “pode crê” para amanhã podermos rir juntos e não uns dos outros. 

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Eduardo Cunha

Eduardo Cunha é o editor chefe do ParaWebNews. É Advogado (UFPA) com especialização em ciências criminais, músico, social media, blogueiro e jornalista, acumulando anos de experiência dos bastidores da política no Estado do Pará.

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