Política

CRISE POLÍTICA, CONTRA-REVOLUÇÃO & BARBÁRIE NO BRASIL

Por Alex Fiúza de Mello

O agravamento da crise política, moral e institucional empurra o Brasil para o pântano de uma guerra civil em ponto de erupção, de dramáticas consequências. Os sinais e sintomas do esfacelamento de todo lastro de ordem social, alimentados pela descrença nas instituições – sobretudo a perda de legitimidade do Congresso Nacional e o extremo descrédito do Supremo Tribunal Federal –, projetam o pessimismo e o descontentamento crescente da população e ameaçam a sua crença no futuro. Por muito menos, o estamento no poder da França do final do século XVIII foi guilhotinado.

Diante de tantos desmandos, corrupção, escárnio e desfaçatez por parte da classe política brasileira e membros do STF – particularmente no tocante às últimas decisões de retaliação à luta contra a corrupção e o crime organizado (Lei do “Abuso de Autoridade”; fim da prisão em segunda instância, etc.) –, o que impede que, no Brasil do início do século XXI, por revolta popular, ocorra fenômeno semelhante?

Sociologicamente, a resposta pode ser encontrada, grosso modo, na dificuldade de uma maior conscientização e mobilização dos segmentos sociais afetados – a classe média e as classes populares –, basicamente por três razões principais: 1) a classe média, por configuração social, tão somente almeja não perder os seus direitos e status de consumo; logo, não adota, tendencialmente, uma postura transformadora radical, preferindo a mudança dentro da ordem; 2) as classes populares (potencialmente mais predispostas ao enfrentamento) foram, nas últimas décadas, cooptadas e controladas justo por parte daqueles a quem caberia, hoje, depor do poder, uma vez que metamorfoseados em condôminos do crime institucionalizado: o PT e suas agremiações satélites, agora novos sócios da cleptocracia oligárquica e pluripartidária instalada no país (como demonstraram o Mensalão, o Petrolão e outras investigações em curso); 3) a narrativa conivente da grande mídia com o status quo, tradicionalmente acostumada às facilidades do financiamento público e acionista corporativa da “confraria”.

E ante a ausência de revolução (transformação da ordem vigente), mantido o quadro atual (sem solução) de espoliação das massas e de impunidade – com os mesmos atores no poder –, configura-se, então, o cenário de crise estrutural na forma crônica da bandidagem, do contrabando, da violência impune, do caos, da corrupção generalizada. Sucumbe, passo a passo, o Estado de Direito. Instaura-se, progressivamente, o estado de guerra, a barbárie, a ausência de res pública, com o aniquilamento da ordem constitucional e da democracia.

A manter-se tal panorama, o Brasil do século XXI já se anuncia um projeto fracassado. Faliu a “Nova República”. Faliram as elites e seus representantes engravatados e togados. Faliram as “esquerdas”, embotadas em suas incoerências e mediocridade. Faliram os empresários que, ao invés de apostar na ciência, na tecnologia e na inovação – no aumento efetivo de sua capacidade competitiva –, preferiram o lucro fácil, o compadrio desonesto e a cumplicidade da banda podre do Estado. Ninguém foi capaz de construir e liderar um Projeto de Nação, de País, de Pacto Federativo afinados com os desafios da contemporaneidade, de um mundo que se globaliza,

imerso em inexoráveis interdependências e transformações, no contexto do qual o domínio do conhecimento e o mínimo de decência e de ética serão, como nunca na história, os fatores e os vetores determinantes de todo progresso humano – assim como da cidadania e da soberania de um povo.

A mentalidade dominante continua a ser a da “República Velha”: localista, regionalista, doméstica, de perspectiva de curto prazo, cujo horizonte (e compromisso) não ultrapassa(m) a próxima eleição. Construiu-se uma “democracia” meramente instrumental, aparente, de regras e procedimentos, mas sem “república”: carente de valores e práticas sociais voltados ao bem comum. Restaram as sugadoras corporações: sindicais, empresariais, partidárias – todas ensimesmadas, autistas, entrópicas, conservadoras (portanto, contrarrevolucionárias), incapazes de representar (e pensar) o conjunto da sociedade.

Na moldura desse quadro, a política se esgrimiu num mero jogo de oportunismo de curto prazo, de populismo demagógico, sem visão ou compromisso de futuro; ambiente em que verdadeiras quadrilhas de “colarinho branco”, detentoras de privilégios e imunidade – com a leniência, conivência e salvaguarda dos “príncipes togados” (parte dos comensais) –, apossaram-se do Estado e, dele, transformado em bunker de negociatas, enriqueceram às custas da miséria (econômica e mental) da população, usurpada em sua soberania e dignidade. Até o “Fundo Especial de Financiamento da Democracia” – nome pomposo (e cínico) destinado a empoderar, ainda mais, os “donos do poder” – nada mais representa ou simboliza que a continuidade e o aprofundamento desse roubo estrutural e sistêmico que se instalou, sob a capa da legalidade, no país.

Sim, a classe política brasileira (e seus comparsas togados), há muito de costas para os seus representados, não acredita nos sans-culottes tupiniquins. Não se sente ameaçada. Não teme a força – e a forca – de uma revolta popular. Ao contrário: mantém a arrogância, a empáfia, a dissimulação e o escárnio como distintivos de sua conduta, inebriada pelo poder e confiante na impunidade historicamente garantida de seu foro privilegiado e de uma ordem jurídica que lhe concede recursos protelatórios até a consumação da prescrição de seus múltiplos crimes.

Nessa trajetória, de tamanha cegueira e irresponsabilidade coletiva, na ausência de estadistas e de partidos que, verdadeiramente, encarnem o “príncipe moderno”, o Brasil, de efêmera memória e robusta ignorância, caminha, a passos largos, para a vala da história. Na contramão do processo civilizatório em curso. Sem qualquer protagonismo e credibilidade em plano internacional.

Em plena Era da Globalização e do Conhecimento, pelo andar da carruagem, estaremos condenados, inapelavelmente, à escória do mundo. Continuaremos colonizados, dependentes, desorientados, humilhados, inconclusos, como um ornitorrinco, sem acesso à soberania e à cidadania universal. Um semi-povo, uma sub-nação imersa num sebastianismo passivo e naufragado, pois condenado à espera ilusória de um “salvador da pátria” (não importa se de “direita” ou de “esquerda”) que, por pura mágica messiânica, indique-nos um caminho que não seja o abismo definitivo da servidão.

Alex Fiúza de Mello

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